Relações Internacionais Balança Comercial

A locomotiva pode descarrilar

Por CNA 25 de julho 2018
Compartilhe:
P 0 502546002015392941921

O agronegócio brasileiro é uma das mais potentes locomotivas da economia nacional. Uma das suas expressões mais notáveis é a agroindústria da carne que sustenta 4,1 milhões de empregos e contribui para gerar os mais de 100 bilhões de dólares por ano de superávit que o agronegócio proporciona à balança comercial do País.

O setor, entretanto, sofreu nos últimos 15 meses duros golpes desferidos no Brasil e no exterior que cindiram sua espinha dorsal e causaram pesados prejuízos. Em março de 2017, depois de investigar milhares de frigoríficos, a Polícia Federal anunciou a operação Carne Fraca, promovendo um efeito midiático muito intenso que não se justificou pelos resultados apresentados, envolvendo não-conformidades operacionais de cinco plantas frigoríficas. O fato abalou gravemente a reputação do Brasil no exterior com grande estrago no desempenho das exportações.

Em maio de 2017, a delação dos irmãos Batista da JBS provoca uma crise política sem precedentes ao envolver o Presidente da República em condutas ilícitas, o que impactou diretamente a economia, derrubando o lento movimento de reversão da crise e afetando ainda mais a reputação do País e da indústria da carne.

Em novembro a Rússia – que se esperava a grande parceira comercial em razão da Copa do Mundo – anunciou a suspensão das importações de carne suína brasileira, não retomando até hoje as compras.

No início do ano o Ministério da Agricultura surpreende o mercado, determinando que diversos frigoríficos deixassem de exportar para a Europa, levando o próprio mercado europeu a exigir explicações e, na sequência, anunciar a suspensão do Brasil. Em abril de 2018 o cobiçado mercado europeu, depois de duramente conquistado e mantido por décadas, fechou-se para a carne de aves brasileira.

Também em março deste ano, a Operação Trapaça da Polícia Federal, apanha funcionários da BRF – uma empresa que é referência mundial em produção de proteína animal – adulterando laudos laboratoriais de produtos em processo de exportação.

Em maio, a greve dos transportadores paralisou o País por longos e penosos dez dias, desorganizou e impôs pesadas perdas a praticamente todos os setores da atividade econômica. Mais de 70 milhões de animais pereceram, agudizando o calvário da indústria da carne. As suas consequências permanecem e continuam emergindo em análises e relatórios e impactando empresas, organizações, Governo e sociedade.

Em junho, sem nenhuma base fática, a China acusa o Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio) de prática de dumping na produção de frango, quando deveria reconhecer a eficiência verde-amarela em produzir com qualidade e baixo custo aquela carne branca. E impõe tarifas antidumping.

Para completar, a Arábia Saudita – que importa frango brasileiro há mais de 40 anos – decide, por convicções religiosas, exigir que o Brasil elimine o eletrochoque no abate de aves destinadas àquele País. A mudança do sistema de abate custará milhões de reais às empresas.

São oito golpes contra a locomotiva, que ameaça descarrilar. A indústria brasileira de carne e, em especial, a indústria catarinense, atingiram nas últimas décadas um elevado nível de segurança e qualidade em sua operação, condição internacionalmente admirada e reconhecida. Os padrões de biosseguridade, os avanços genéticos e a atenção extrema à sanidade e ao manejo fizeram da nossa produção agropecuária uma das mais seguras de todas as cadeias produtivas, graças ao empenho e profissionalização dos produtores rurais e aos pesados, intensos e contínuos investimentos das agroindústrias.

As indústrias de aves e suínos adotam o que há de mais avançado em máquinas, equipamentos, processos e recursos tecnológicos, assegurando alimentos cárneos confiáveis e de alta qualidade – exportado para mais de 160 países. Os efeitos deletérios de todos esses golpes, no mercado, foram e são devastadores. Os mercados perdidos não serão recuperados rapidamente. Apesar de certa expectativa de melhora nesse segundo semestre, os prejuízos serão imensos, com grandes perdas econômicas para o País, para os produtores rurais e para as empresas.

*José Zeferino Pedrozo é Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (FAESC) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR/SC)

Veja também

Panorama do Agro | Edição 21
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 21

26 de junho 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 20
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 20

19 de junho 2026

Ler publicação
VBP SEGUE PROJETADO EM QUEDA PARA 2026
Publicações Comunicado técnico

VBP SEGUE PROJETADO EM QUEDA PARA 2026

Núcleo Econômico

15 de junho 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 19
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 19

12 de junho 2026

Ler publicação
Abril tem criação de 85,9 mil empregos formais
Publicações Caged

Abril tem criação de 85,9 mil empregos formais

Núcleo Econômico

3 de junho 2026

Ler publicação
Panorama do Agro | Edição 18
Publicações Panorama do agro

Panorama do Agro | Edição 18

3 de junho 2026

Ler publicação
PIB da agropecuária cresce 2,0% no primeiro trimestre de 2026
Publicações Pib do agro

PIB da agropecuária cresce 2,0% no primeiro trimestre de 2026

Núcleo Econômico

2 de junho 2026

Ler publicação
Relatório - Atuação Legislativa Maio de 2026
Publicações Relatórios estratégicos

Relatório - Atuação Legislativa Maio de 2026

Relações Institucionais

1 de junho 2026

Ler publicação
Margens Positivas na Pecuária
Publicações Campo futuro

Margens Positivas na Pecuária

Bovinocultura de corte

1 de junho 2026

Ler publicação
Interpretação do Documento Central Nº 1, de 2026, da China
Publicações Comunicado técnico

Interpretação do Documento Central Nº 1, de 2026, da China

Relações Internacionais

1 de junho 2026

Ler publicação