Núcleo Econômico Agricultura

Caminhos para uma agricultura 4.0

Por *Pierre Santos Vilela

Por CNA 5 de fevereiro 2018
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O último Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, Suíça, teve entre seus principais temas em discussão a chamada quarta revolução industrial, ou indústria 4.0, e seus impactos sobre sociedades, ambiente e economia.

A indústria 4.0 representa novos processos e produtos originados de avanços científicos de ponta e convergentes, como as info, nano, bio e neuro-cognotecnologias, que têm aplicações em praticamente todas as áreas do conhecimento e setores econômicos, inclusive na agricultura. Abrem-se, a partir daí, inúmeras oportunidades (e riscos) para novos processos, produtos e negócios.

Entre as consequências esperadas dessa nova onda de desenvolvimento e conhecimento, discutiram-se muito no fórum os impactos negativos para economias e empregos em países mais vulneráveis ou não preparados para gerar e desenvolver tecnologias próprias. Há um grande risco de aumento de assimetrias entre países pobres e ricos ou entre grupos sociais mais preparados e capacitados e aqueles não preparados.

Reconhecendo a agricultura como uma das principais vocações e atividade econômica primordial desenvolvida no Brasil e, ainda, como importante ferramenta para mitigação das assimetrias citadas acima, pergunta-se: o que estamos fazendo para inserir a agricultura brasileira nessa nova onda de desenvolvimento e, assim, manter o status do país no cenário mundial da produção de alimentos?

Considerando-se o histórico de investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação (P, D & I) no país, certamente muito pouco. Atualmente, o investimento global em P, D & I aqui gira em torno de 1,5% do PIB, e, PIB em retração de 3,5% em 2015 e outros 3% previstos para 2016. Os Estados Unidos investem 16 vezes mais. Considerando-se apenas a pesquisa agrícola, os EUA investem mais que o dobro do Brasil.

Pelo enfoque da educação – pois precisamos de cientistas de ponta para gerar tecnologias de ponta –, a formação de técnicos capazes de criar e conduzir projetos de alto nível é limitada a algumas universidades públicas, que disputam entre si parcos recursos para manter suas estruturas e fazer pesquisa. No último ano, em razão da crise econômica, todas ficaram de pires na mão para não interromper suas atividades.

Resta-nos o permanente protagonismo da Embrapa, mas que também se vê ameaçada pelas desventuras da má gestão pública vivida no país e do corte de investimentos. Algumas importantes pesquisas estão em andamento na instituição, em cooperação entre vários centros de pesquisa e universidades.

Podem-se destacar pesquisas nas áreas de ótica e fotônica (aplicações da luz, inclusive laser) e biotecnologia, incluindo bionanotecnologia (estudo de materiais nanoestruturados encontrados da natureza) e nanobiotecnologia (objetos nanométricos produzidos pelo homem). Apesar de ainda no campo experimental, essas tecnologias apresentam amplo potencial prático de aplicação e boas perspectivas para contribuir em vários aspectos na produção e industrialização de produtos agropecuários.

O atual perfil dos administradores públicos e dos políticos brasileiros só nos permite imaginar que, com raras exceções, infelizmente ficaremos mais uma vez para trás também nesses novos campos da ciência, como ficamos em outros. Somos atualmente importadores da maior parte da tecnologia de automação existente nos campos brasileiros, utilizada em máquinas e equipamentos agrícolas, como nos sistemas de irrigação ou em tratores e implementos aplicados na agricultura de precisão.

Ou enxergamos o início da formação da nova onda e fazemos todo o esforço para entrar neste momento, ou ficaremos na posição de retardatários e importadores de tecnologias, transferindo para os países-líderes oportunidades, renda e empregos de qualidade. A política brasileira precisa urgentemente de mudança, encarando efetivamente e com seriedade educação, ciência e tecnologia como premissas para o crescimento e modernização do país.

Pierre Santos Vilela é Superintendente do INAES

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